A despoluição dos rios de São Paulo é um problema constante para os governantes do Estado. Desde a década de 1990 tentativas são realizadas para limpar o rio Tietê e seu afluente, o rio Pinheiros. Este último é o foco da gestão do atual governador João Doria (PSDB). A promessa é que até dezembro de 2022 o “novo rio Pinheiros” esteja despoluído.

Se conseguir atingir suas metas, Doria terá conseguido um feito em que todos os seus antecessores falharam. Durante 25 anos, governantes do PSDB tentaram limpar o Pinheiros e investiram R$ 28,5 bilhões em projetos, muitos deles ainda em andamento.

Doria assumiu esse compromisso ainda no início de seu mandato, em 2019. Ele afirma que com o investimento de mais R$ 4 bilhões “até dezembro de 2022, o rio Pinheiros estará limpo e despoluído“. Depois, anunciou a construção de um parque na região, com pista de caminhada, ciclovias e interligação com o transporte público.

“[Na região] será construída uma instalação moderna e impactante, com cafés, bares, restaurantes, academia, museu e o maior cinema ao ar livre da América Latina. É mais um passo no programa de despoluição do Rio Pinheiros, cujo investimento beira R$ 4 bilhões“, disse o governador em dezembro de 2020.

Depois da morte do prefeito de São Paulo Bruno Covas (PSDB), em 16 de maio, Doria anunciou em seu perfil do Twitter que o futuro parque será batizado em homenagem ao seu ex-companheiro de partido.

Doria fez do projeto de despoluição uma vitrine para as eleições de 2022. Publicações sobre o retorno da vida marinha em alguns trechos do rio têm se tornado comuns em suas redes sociais. O governador paulista é um dos pré-candidatos a presidente dentro de seu partido.

EXPECTATIVA X REALIDADE

A transformação do tema em promessa eleitoral é algo bom, de acordo com especialistas consultados pelo Poder360.

“Doria está usando isso como plataforma política. E é algo que considero positivo porque coloca o rio em evidência“, diz Luiz de Campos, geógrafo e cofundador da ONG Rios & Ruas.

O geógrafo afirma que esse não foi um tema para o qual os políticos chamavam a atenção nos últimos anos. Para ele, com os discursos de Doria, a despoluição dos rios do Estado voltaram à mente da população paulista.

Gustavo Veronesi, coordenador do projeto Observando os Rios, da SOS Mata Atlântica, concorda. Ele afirma que o discurso é algo bom, mas que as pessoas precisam entender quais são as reais perspectivas. “Uma coisa é a realidade, outra é a promessa. Um rio pode ser despoluído, mas não é algo que acontece em pouco tempo“.

Os especialistas dizem que o rio não estará de fato limpo e despoluído. Mas aspectos técnicos do Pinheiros, como o cheiro e o nível de oxigênio, devem melhorar significativamente. “Ninguém vai nadar no rio Pinheiros em dezembro de 2022. Não tem como“, explica Campos.

De acordo com as promessas de Doria, 2 parâmetros técnicos são muito importantes para o processo de despoluição do rio. Um deles é a diminuição do odor da água. Por isso, parte significativa do projeto é evitar que o esgoto seja despejado na água do Pinheiros ou dos córregos ligados à ele.

O outro ponto, o nível de oxigênio, está diretamente conectado às publicações do governador sobre peixes no Pinheiros. Se a DBO (demanda bioquímica de oxigênio) na água do rio ficar menor do 30 mg/litro, é possível que animais aquáticos menos exigentes voltem ao Pinheiros. Os níveis de oxigênio comumente encontrados no rio, no entanto, são de 220 mg/litro.

“Os desafios são gigantescos“, afirma Veronesi. E, de acordo com ele, um dos maiores é o tratamento de esgoto. “Isso leva ao problema das milhares de pessoas que não têm acesso a saneamento básico“. Para o especialista, se essa questão não for resolvida, é fácil o rio voltar a piores condições.

Um dos objetivos do programa “Novo Rio Pinheiros” é fazer a ligação de 532.619 residências à rede de esgoto. Além disso, o projeto conta com a instalação de 5 URQs (unidades recuperadoras de qualidade das águas) em rios afluentes do Pinheiros que estão poluídos.

O QUE HÁ DE NOVO

Campos diz também que, nesse novo projeto, é possível que as obras não se estendam por muitos anos. “As empresas vão receber só quando alcançarem as suas metas. Não é certeza de que vai dar certo, mas conseguimos ver melhoras da água já, o que é positivo e nos deixa muito esperançosos“, afirma.

Parte dos contratos do projeto iniciado pelo governo Doria contam com cláusulas de performance. Os de tratamento de esgoto, especialmente, só permitem o pagamento com a comprovação científica de que a qualidade da água melhorou.

Obras que se arrastam por anos em relação aos rios de São Paulo não são novidades. O projeto de flotação, por exemplo, levou 10 anos apenas para ser descontinuado pelo governo do Estado. Em 2011, foi divulgado que o método de limpeza da água não daria certo. De acordo com Veronesi, especialistas já tinham alertado o governo muito antes.

Diferente do Projeto do Tietê, que se desenrola desde 1995, o do novo Pinheiros promete a despoluição parcial em 4 anos. Mas os especialistas explicam que são realidades diferentes.

Para começar, o Tietê é muito maior. Enquanto o rio Pinheiros tem 25 quilômetros de extensão, o rio Tietê tem 1.150 quilômetros. O Pinheiros é apenas um afluente do Tietê e sua despoluição faz parte do projeto que se iniciou há 25 anos.

Além disso, o rio Tietê sempre foi visto como um rio propriamente dito, em que as pessoas poderiam nadar, passear de barco, pescar e aproveitar a natureza. Já o Pinheiros, por muito tempo, foi considerado mais como fonte de energia por meio da correnteza da água entre ele e as represas de Guarapiranga e Billings. Assim, sua limpeza e a qualidade de sua água não foram uma preocupação por um longo tempo. Uma mudança dessa perspectiva começou com a construção das ciclovias que margeiam o rio e agora pode ser definitiva se a construção do Parque Linear Bruno Covas, prometida por Doria, realmente ser realizada.

“Estamos falando de uma história de 150 anos em que o rio Pinheiros não foi visto como rio. A mudança é lenta“, explica Campos.

Para isso, segundo Veronesi, é preciso que a população tenha mais contato com o rio, inclusive para que ele possa ficar cada vez mais limpo. “Se você envolve a comunidade, se as pessoas se importam, a limpeza é mantida. Mais do que isso: se as pessoas se incomodam com o cheiro, com a visão, cobram por melhorias“. E completa: “A despoluição é possível. Basta um esforço de todos, porque é uma responsabilidade de todos“.