O primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, gerou polêmica em seu país ao estabelecer uma ligação entre o estupro e a maneira como as mulheres se vestem. O líder conservador chegou a ser chamado de “ignorante” pela Comissão de Direitos Humanos do país.

Em uma entrevista televisiva transmitida no fim de semana, Imran Khan estimou que os casos de estupro “aumentaram rapidamente” no mundo moderno. Segundo ele, isso seria uma consequência normal “em qualquer sociedade onde a vulgaridade aumenta”, insinuando que a maneira como as mulheres se vestem poderia ter uma incidência nas agressões sexuais.

Como se não bastasse, o premiê disse que a razão pela qual as mulheres se cobrem no Islã é para escapar da tentação. “O próprio conceito de ‘purdah’ é evitar a tentação. Nem todo mundo tem vontade de se afastar dela”, disse ele.

O termo “purdah” refere-se à separação estrita dos sexos e à obrigação de pudor das mulheres em algumas comunidades muçulmanas ou hindus.

Playboy que virou conservador

Antes de se tornar chefe do governo, Imran Khan foi um herói esportivo no Paquistão. Ex-jogador de críquete, ele foi o principal responsável pela vitória de seu país na Copa do Mundo da modalidade em 1992. Durante sua carreira como atleta, ele também ganhou fama por colecionar namoradas.

Mas desde que entrou na política, em 1996, Khan começou a se mostrar muito mais conservador e apegado à religião. Ao ponto de fazer aparições públicas oficiais carregando um tasbih, acessório tradicional muçulmano parecido com um rosário

“Desconcertante ignorância”

As declarações do chefe do governo sobre o estupro suscitaram reações imediatas. Uma petição online foi lançada condenando posições “objetivamente incorretas, nocivas e perigosas”.

O texto da campanha na internet insiste que “a culpa é exclusivamente do estuprador e do sistema que favorece o estuprador, incluindo a cultura fomentada por certas declarações (como a de Khan)”.

A Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, um órgão independente, também declarou-se “chocada” com as palavras do primeiro-ministro. Sua relatora especial considerou que constituía “desconcertante ignorância” das motivações para o estupro e que esse tipo de comentário tinha o efeito de “responsabilizar os sobreviventes do estupro”.

Vítima estigmatizadas

País de maioria muçulmana (mais de 95% da população), o Paquistão tem grande parte de seu território regido por um código patriarcal, baseado na noção de “honra”, que sistematiza a opressão das mulheres.

As vítimas de abuso sexual são frequentemente estigmatizadas, os estupros raramente são denunciados e as investigações não são conduzidas de maneira adequada. De acordo com dados oficiais, apenas 0,3% dos casos de estupro no Paquistão terminam em condenação.

Mas a população paquistanesa tem se mobilizado cada vez mais para mudar essa situação. Em setembro, o estupro de uma mulher por uma gangue diante de seus filhos, provocou uma comoção nacional, com manifestações em todo o país.