O presidente do Peru, Martín Vizcarra, enfrenta  uma grave crise política após a divulgação no Congresso de áudios em que ele pede a assessores que mintam em um inquérito parlamentar sobre sua relação com um ex-colaborador investigado por contratos irregulares.

A transmissão dos áudios durante uma sessão do parlamento levou o presidente do Congresso peruano a convocar uma reunião de representantes dos partidos para avaliar se vão solicitar uma comissão de investigação ou promover a destituição de Vizcarra por incapacidade moral.

“Primeiro você tem que ver o que é, e depois o que vai ser dito”, diz Vizcarra a dois de seus colaboradores na gravação. Depois, ele pede para mentirem diante do Congresso sobre a quantidade de vezes que o ex-colaborador investigado foi ao Palácio do Governo.

Participam do diálogo as assessoras Miriam Morales e Karem Roca. Elas narram a Vizcarra até cinco idas do polêmico ex-assessor Richard Cisneros ao palácio.

“É preciso dizer que ele entrou duas vezes”, pede Vizcarra. “O que fica claro é que nessa investigação todos estamos envolvidos”, acrescenta o presidente.

Nova crise política peruana

Os áudios vêm a público em meio a confrontos constantes entre o Legislativo e o Executivo pela aprovação de uma reforma política promovida pelo governo. A mudança deixaria candidatos condenados pela justiça fora das eleições.

As gravações de Vizcarra foram entregues pelo deputado Edgar Alarcón, presidente da comissão que investiga o caso do ex-assessor.

“Pode ver que há uma falha moral, o presidente não pode mentir”, disse Alarcón, do partido de centro-esquerda Unión Por el Perú, a jornalistas.

“Há rumores de que a cadeira ficará vaga”, disse o deputado Moisés Gonzáles, da Aliança para o Progresso (APP).

“É claro que o presidente Vizcarra mentiu para o país”, disse o deputado Omar Chehade, também da APP.

Cantor investigado

O personagem político que levou Vizcarra à beira do impeachment foi Richard Cisneros, um cantor contratado pelo governo como orador e apresentador.

O caso explodiu em maio, quando a imprensa descobriu que o Ministério da Cultura havia oferecido contratos supostamente irregulares de US$ 10 mil (cerca de R$ 53 mil) a Cisneros, um artista pouco conhecido na mídia local, em meio a uma pandemia.

A crise irrompe enquanto o Peru é um dos países mais afetados pela pandemia de Covid-19 no mundo, com mais de 700 mil infecções e 30 mil mortes.