O acordo de coalizão, anunciado na quarta-feira (2) em Israel, ainda não foi validado pelo Knesset, o parlamento do país. Mas se os novos aliados ganharem a confiança dos deputados, Israel vira a página de 12 anos de governo de Benjamin Netanyahu.

O acordo prevê que o nacionalista religioso Naftali Bennett se torne o primeiro-ministro nos próximos dois anos. Empresário bem-sucedido e soldado de elite do exército israelense, Bennett acumula diversas facetas do nacionalismo religioso em Israel.

Naftali Bennett não vive em uma colônia, mas em Ra’anana, ao norte de Tel Aviv. Uma informação que diz muito sobre o possível futuro primeiro-ministro, bem como sobre a sociedade israelense: o nacionalismo religioso não está mais confinado aos residentes de assentamentos judeus na Cisjordânia, ou em Jerusalém Oriental.

Essa corrente ideológica tornou-se difícil de contornar, em um país cada vez mais à direita, um caminho ilustrado pela trajetória de Bennett, prestes a liderar o próximo governo israelense.

A autodenominada “coalizão pela mudança” que se organiza em Israel é muito heterogênea, e deve ser comandada por Bennett, líder da direita nacionalista religiosa. O movimento também conta com a formação islâmica árabe Ra’am, liderada por Mansour Abbas, uma figura política israelense que também vem ganhando destaque nos últimos meses.

Apelidado de “fazedor de reis” pela mídia internacional, Abbas há muito é cortejado por Benjamin Netanyahu e pelo centrista Yaïr Lapid. Ele é o chefe da Lista Árabe Unida, uma pequena formação internacional da Irmandade Muçulmana.

O Ra’am ganhou quatro das 120 cadeiras nas eleições legislativas israelenses em março passado, quatro cadeiras preciosas para se obter uma coalizão majoritária. A última vez que um partido árabe israelense apoiou um governo em Israel foi em 1992.

Um defensor da colonização

Nascido há 49 anos em Haifa (norte), filho de pais norte-americanos, Naftali Bennett vive várias vidas simultaneamente. Empresário bem-sucedido na área de alta tecnologia, ele fez fortuna vendendo sua startup de cibersegurança Cyotta por US$ 145 milhões em 2005. Ele havia servido anteriormente em várias unidades de elite do exército israelense, incluindo a prestigiosa divisão Sayyeret Matkal, que abrigou também um certo Benjamin Netanyahu.

O atual primeiro-ministro e Bennett têm outras coisas em comum. O líder da direita nacionalista religiosa trabalhou ao lado do atual primeiro-ministro enquanto este ainda estava na oposição. Uma geração separa os dois homens, que dominam perfeitamente os códigos da comunicação política em Israel.

Vestindo a kipá dos judeus religiosos, Bennett construiu sua carreira política no movimento nacionalista religioso, também chamado de sionista religioso. Um movimento que defende a colonização dos Territórios Palestinos Ocupados e se opõe a qualquer forma de Estado palestino em terras reivindicadas em nome da Bíblia. Este campo político há muito é representado pelo Mafdal (acrônimo de Miflaga Datit Leumit: Partido Religioso Nacional).

A partir de 2008, Bennett se tornou o líder desse movimento em cuja frente os nomes se sucederam: Habeit Hayehudi (“o lar judeu” ou “a casa judaica”), “A Nova Direita”, e depois Yamina (“Direito” ou “Em direção ao que é certo “).

Os nomes dessas coalizões partidárias mudam, mas a ideologia permanece a mesma: a anexação da maioria dos Territórios Palestinos Ocupados, a oposição ao estabelecimento de um estado palestino independente, o conservadorismo religioso e o liberalismo econômico.

Um software político que Bennett foi capaz de desenvolver, por ser mais aberto nas questões sociais do que Netanyahu.

Foi ao seu lado que o parlamentar Ayelet Shaked tornou-se, assim, outra estrela em ascensão da direita radical, ao reivindicar uma modernidade na qual o campo nacionalista religioso não havia sido reconhecido anteriormente.

Bennett, ex-protegido de Netanyahu

Figura importante no sionismo religioso rejuvenescido, Bennett primeiro se estabeleceu como um aliado privilegiado de Netanyahu, este último buscando cada vez mais a direita do centro de gravidade de suas coalizões de governo. Assim, Bennett acumula pastas em sucessivos governos do irremovível “Bibi”: Economia, Diáspora, Educação, e depois Defesa, em 2019-2020.

Aliado natural à direita de Netanyahu, Bennett vai para a oposição após as eleições de março de 2020. Um ano depois, acontece uma nova votação (a quarta em dois anos): o premiê, suspeito de corrupção, não consegue formar uma coalizão.

O mandato se deslocou para o centrista Yair Lapid, que recebeu então o apoio de Bennett. Uma manifestação que tem um preço político: se a coligação anunciada receber o voto do Knesset, Naftali Bennett será o primeiro-ministro até 2023, antes de ceder a cadeira a Yair Lapid.