A Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro emergiu como pivô do conflito entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, e o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro.

Em depoimento prestado no sábado (2), na sede da PF em Curitiba, Moro disse ter recebido uma mensagem de Bolsonaro na qual o presidente afirmava expressamente que “queria” a Superintendência da PF no RJ sob sua influência.

Veja os principais pontos do depoimento de Moro à PF

O ex-juiz federal depôs no âmbito de inquérito que investiga a acusação feita pelo próprio Moro, ao anunciar a saída do ministério, de que Bolsonaro tentou interferir politicamente nas investigações da PF. O depoimento demorou mais de 8 horas.

Cronologia

20 de abril de 2018: Ricardo Saadi assume a Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro ainda no governo do ex-presidente Michel Temer;

1º de novembro de 2018: Eleito, Bolsonaro promete ‘carta-branca’ a Moro;

20 de novembro de 2018: Antes de assumir o ministério, Moro anuncia o delegado Maurício Valeixo, superintendente da PF no Paraná, para ser o novo diretor-geral da PF

16 de agosto de 2019: Já no governo Bolsonaro, Ricardo Saadi deixa o cargo de superintendente, que passa a ser ocupado pelo delegado Carlos Henrique Oliveira Sousa. Bolsonaro alegou “problemas de produtividade” na gestão de Saadi – a PF negou e disse que foi a pedido dele. O presidente chegou a anunciar o nome de um substituto: Alexandre Saraiva, então superintendente no Amazonas. No fim, o cargo acabou sendo ocupado por Oliveira Sousa, então superintendente da PF em Pernambuco.

17 de agosto de 2019: Delegados ameaçam deixar postos após suposta tentativa de intervenção de Bolsonaro na chefia do RJ.

28 de agosto de 2019: Após a polêmica saída, Ricardo Saadi foi enviado para trabalhar no exterior, na Holanda;

8 de outubro de 2019: Saadi é nomeado para chefiar o serviço de Repressão à Lavagem de Dinheiro, setor dentro da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado, em Brasília. A nomeação do delegado para o cargo foi comemorada na PF;

6 de novembro de 2019: PF abre inquérito para apurar depoimento de porteiro do condomínio onde Bolsonaro tem casa, na Barra. À Polícia Civil, o porteiro disse que um dos presos por matar Marielle entrou n condomínio dizendo que iria na casa de Bolsonaro, horas antes do crime.

24 de abril de 2020: Bolsonaro exonera Valeixo o cargo de diretor-geral da PF. O decreto registrando a saída do delegado dizia que a saída tinha ocorrido “a pedido” – informação retificada em publicação posterior. Inicialmente, a exoneração também estava assinada por Moro nega ter assinado o documento;

24 de abril de 2020: Moro anuncia a saída do governo. Em entrevista, o ex-juiz federal alega que o presidente queria interferir na Polícia Federal;

24 de abril de 2020: Fontes no Palácio do Planalto apontam o delegado federal Alexandre Ramagem, até então diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), como nome escolhido por Bolsonaro para ser diretor-geral da PF. Ramagem foi segurança do presidente durante a campanha eleitoral, posto que assumiu após o atentado a faca contra Bolsonaro. O delegado é considerado amigo da família do presidente.

29 de abril de 2020: O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspende a nomeação de Ramagem para a diretoria-geral da PF e cita haver indício de desvio de finalidade na escolha de Ramagem.

29 de abril de 2020: Bolsonaro torna sem efeito o decreto nomeando Alexandre Ramagem como diretor-geral da Polícia Federal;

30 de abril de 2020: Bolsonaro comenta a suspensão da nomeação de Ramagem dizendo que a decisão do ministro Alexandre de Moraes foi “política”;

4 de maio de 2020 : Em um intervalo de uma hora, o presidente nomeou e deu posse ao delegado Rolando de Souza como novo diretor-geral da PF. Souza atuava na Abin, onde chegou por indicação de Ramagem;

4 de maio de 2020: Recém-empossado, Rolando de Souza decide que vai trocar o superintendente da instituição no Rio de Janeiro, Carlos Henrique Oliveira Sousa. O superintendente deixará o RJ para ir para o posto n° 2 da Polícia Federal.

5 de maio de 2020: Bolsonaro confirma que Oliveira Sousa estava deixando o cargo e acrescenta que o delegado havia sido “promovido”.

5 de maio de 2020: Questionado sobre a troca na Superintendência da PF no RJ, Bolsonaro não respondeu.