A missão de colocar o carnaval de 2020 na rua promete ser a mais desafiadora já vivida por quem risca o chão da Sapucaí todos os anos. Será o primeiro desfile das escolas de samba sem apoio financeiro do poder público, uma tradição que, segundo pesquisadores, começou ainda na década de 1930. As adversidades provocaram reflexos nos enredos — com desfiles mais engajados politicamente — e obrigaram as agremiações a repensarem o modelo de gestão em busca de alternativas para fechar as contas.

Enquanto a Acadêmicos do Salgueiro prepara o lançamento de um novo programa de sócio-torcedor, a Estação Primeira de Mangueira, atual campeã do carnaval, lançou no último dia 14 uma campanha de financiamento coletivo com objetivo de arrecadar R$ 1 mil

— O apoio financeiro do poder público ao carnaval começa com Pedro Ernesto, em 1933, que queria transformar o Rio numa potência do turismo e considerava o carnaval um elemento importante para este projeto. O dinheiro vai minguando com o Crivella na prefeitura até chegar à situação inédita de não ter verba pública — diz o pesquisador Mauro Cordeiro de Oliveira Junior.

O presidente da Unidos da Tijuca, Fernando Horta, concorda que as escolas precisam buscar um novo rumo. A agremiação do Morro do Borel conquistou três títulos nos últimos dez anos. Sem dinheiro, no entanto, vem se adaptando aos novos tempos. Se a Azul e Amarelo já gastou até R$ 12 milhões em um carnaval, hoje os desfiles não passam de R$ 8 milhões. Custo que, segundo ele, inclui mão de obra e gastos fixos, como contas de luz e água do barracão, além do material para fazer fantasias e alegorias.

— A situação é caótica, muito difícil colocar o carnaval na rua. Esse é o mais difícil de todos. Gasta-se entre R$ 400 mil e R$ 500 mil só com o aparato da Avenida, com esquema de logística, segurança, alimentação. Só para manter a Cidade do Samba, com limpeza e segurança, cada escola de samba desembolsa R$ 250 mil por ano. Nós temos funcionários fixos que geram impostos, como INSS e FGTS. Estamos correndo atrás de parceiros, mas está muito difícil. A saída está na criatividade — sentencia Horta.

Após ver a ideia do sócio-torcedor não decolar na antiga gestão, o Salgueiro contratou uma empresa com experiência na gestão desse serviço num grande clube de futebol do Rio, e pretende lançar o novo programa ainda neste ano.

— Estamos planejando ações como espaço exclusivo na quadra com foco no sócio, que também vai ter uma entrada diferenciada do restante do público. O sócio precisa se sentir valorizado — afirma Nelson Sampaio, que trabalha no marketing da escola.

A Verde e Rosa criou a campanha “Mangueirense nota 10”, um crowdfunding para arrecadar R$ 1 milhão para o desfile de 2020. A escola também faz o espetáculo “Matrizes”, no barracão na Cidade do Samba.

— Quando assumi, em maio, fiz tudo para resguardar a marca. Todo mundo vende a Mangueira. Contratamos escritório de advocacia e estamos conseguindo bloquear shows e produtos, vendidos por terceiros — comemora o presidente da Mangueira, Elias Riche.

A Portela lançou o Bailinho da Portela, sempre às quintas, no Centro do Rio

A Portela lançou o Bailinho da Portela, sempre às quintas, no Centro do Rio Foto: Divulgação

Com dez anos de experiência no marketing das escolas de samba, Bruno Amorim agora integra a recém-criada assessoria comercial da Portela:

— O novo produto que a gente criou é o Bailinho da Portela, no Centro (às quintas). A gente tem que ter canais diferentes de comunicação porque, se formos buscar patrocinador, o que podemos oferecer? O camarote da escola na Sapucaí pode ter ativação (jargão do marketing para uma ação de patrocinador). A quadra, também. A gente está criando produtos que não são lucrativos no primeiro momento para que, na sequência, possam gerar resultado positivo.

Para o coordenador do Centro de Referência do Carnaval, Felipe Ferreira, apesar da crise atual, as escolas estão vivas:

— Há muitos profissionais novos, como carnavalescos e diretores de bateria, o que trouxe um frescor. Isso reflete nos enredos, nos sambas, na forma de desfilar, na maneira como as escolas se apresentam e se organizam na Avenida.

Um dos novos profissionais é Leonardo Bora, professor de Belas Artes da UFRJ e que estreará como carnavalesco no Grupo Especial, ao lado de Gabriel Haddad, na Grande Rio:

— As escolas precisam se reinventar ou vão deixar de existir. Parece que esse abandono do poder público e o contexto de mudanças generalizadas trouxe o potencial político. Essa vertente, que sempre existiu, se tornou mais inflamável. É isso que está levando as escolas a se repensarem.