O cantor sertanejo Sérgio Reis viu colegas do meio artístico desistirem de cantar ao lado dele em seu projeto de parcerias após se tornar alvo de investigação da Polícia Federal por incitação a atos de violência e contra a democracia. De seis artistas anunciados, a única a confirmar participação no novo álbum foi a cantora Paula Fernandes, que afiirmou “ter uma enorme gratidão’’ pelo cantor e “repudiar compromissos firmados e cancelados’’. Agora, o filho e produtor de Reis, Marco Bavini disse que o disco foi deixado de lado pela equipe.

“A produção do CD, a [escolha do] repertório e a gravação foram minhas e, até então, feitas no meu estúdio. Mas, por conta do assunto música ter ficado em segundo plano, eu interrompi tudo”, disse ao G1 o filho de Sérgio Reis, que acrescentou: “Ninguém mais que eu lamenta por isso. Eu vinha gravando e construindo esse projeto há quase cinco anos de gravações. Infelizmente foi assim. O disco não existe mais”.

Zé Ramalho, Maria Rita, Guilherme Arantes e Anastácia são os outros artistas que tinham confirmado participação no disco, mas comunicaram oficialmente que não o fariam mais depois dos últimos episódios envolvendo Sérgio Reis.O álbum, que foi anunciado em maio, tinha previsão de lançamento ainda para o segundo semestre de 2021. Alguns deles também já haviam gravado as suas vozes para o álbum.

Anastácia, que cantaria “Eu só quero um xodó”, um dos seus sucessos em parceira com Dominguinhos, desistiu do projeto na segunda-feira. No caso de Zé Ramalho, o cantor e sua editora também não autorizaram que Sérgio cante a música “Adminrável gado novo”. As motivações para as desistências dos artistas foram as declarações antidemocráticas de Sérgio Reis, que incitava a violência contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e contra senadores da república.

Em um áudio que circulou nas redes sociais, o cantor Sérgio Reis dizia ter convocado uma greve de caminhoneiros com o objetivo de pressionar o Congresso Nacional para afastar os ministros do STF, o que é inconstitucional. A Polícia Federal cumpiu mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nas residências de vários investigados, incluindo a casa do cantor. Ao todo, 29 mandados foram autorizados pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, e atendem a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), que apura manifestações contra as instituições e a democracia.

Em entrevista a Roberto Cabrini, no “Domingo espetacular”, da Record TV, Sérgio Reis pediu desculpas aos ministros do STF, disse “ter feito bobagem” em relação ao áudio vazado com ameaças à corte e que está magoado com a falta de apoio dos colegas. O músico de 81 anos afirmou em entrevista exibida no domingo que não esperava o vazamento de uma conversa que, alega, foi uma brincadeira com um amigo, nem que teria tamanha repercussão.

“Hoje em dia, ninguém mais está sigiloso. Você fala qualquer coisa, já sai na internet, já sai pra lá e vaza, vai pra grupos e tudo mais”, reclamou.

A reportagem foi à casa do cantor, em Mairiporã (SP), na Serra da Cantareira, em dois dias da semana passada, antes e depois da operação da Polícia Federal investigando manifestações contra as instituições e a democracia, na última sexta-feira. Cabrini esteve na casa do cantor na quarta e depois no sábado, um dia após a PF apreender seu celular, quando o encontrou acamado.

Segundo a mulher do cantor, Ângela Bavini, Sérgio, que é diabético, viu sua glicemia subir após as polêmicas recentes, e estaria deprimido com o afastamento dos amigos. A reportagem registrou o momento em que Ângela diz ter recebido uma mensagem de Renato Teixeira, parceiro de Sérgio nos discos “Amizade sincera” I e II, vencedor do Grammy Latino, o que fez o cantor chorar.

“Antes só o Roger, do Ultrage a Rigor, tinha mandado mensagem”, desabafou o cantor.

A atração exibiu momentos da entrevista em que o cantor se irrita e parece desistir de falar sobre o áudio vazado. Depois, ele diz a Cabrini que gostaria de se “redimir” com os ministros do STF:

— Quero pedir desculpas. Mas eu não me escondi, não cometi nenhum crime. Se a polícia bater aqui às 6h da manhã, eu me entrego — comentou o cantor, na parte da entrevista gravada na quarta-feira. — O (ministro do STF Ricardo) Lewandowski já esteve em vários eventos comigo, sabe que não sou assim. Peço desculpas se algo que falei magoou o Alexandre (de Moraes), o (Luís Roberto) Barroso. Mas peço também que eles respeitem o povo.

Shows e comerciais cancelados

A reportagem voltou à casa do cantor para uma nova gravação após a operação da PF, deflagrada após o vazamento do áudio em que Sérgio Reis diz que se o STF não aprovasse o voto impresso em 72 horas, os caminhoneiros iriam “parar o país” e “tirar todos os ministros” da corte. Na cama, ao lado da mulher, Sérgio falou sobre acusações que surgiram nos últimos dias, como a de que ele estaria ligado a grupos de garimpo em terras indígenas e que havia pago uma prótese peniana com dinheiro público, quando foi parlamentar. O cantor negou ambas as acusações.

— Até essa coisa da prótese que inventaram. Tenho 81 anos, tive um AVC, não posso tomar Viagra nem nada dessas coisas. Para namorar com a minha mulher precisei de uma solução prática, uma prótese americana — comentou, negando que tenha sido paga com dinheiro público.

O cantor também reclamou do abandono dos colegas de profissão e dos fãs, além de prejuízos financeiros. Nos últimos dias, Sérgio teve quatro baixas em seu próximo disco, dedicado à MPB. Durante a semana, os cantores Guarabyra, Maria Rita e Guilherme Arantes desistiram de participar. No sábado, foi a vez de Zé Ramalho proibir que o sertanejo utilize a gravação da música “Admirável gado novo”, feita para o álbum.

— Cancelaram quatro shows meus, dois comerciais. Não sei como vou fazer para pagar minhas contas — desabafou