Em meio à guerra entre facções, que há 24 horas causa pânico aos moradores das regiões Norte e Central do Rio, com morte de inocente, reféns e muitos tiros, o subsecretária de Planejamento e Integração Operacional (SSPIO) da Polícia Civil, Felipe Curi, se manifestou, no início da noite da quinta-feira, sobre a ação dos criminosos. Em entrevista ao canal Globonews, Curi negou que tenha ocorrido falha na inteligência e, assim como a Polícia Militar e o governador Wilson Witzel, culpou a decisão do STF — que impede operações policiais em comunidades do estado — por prejudicar as investigações sobre áreas dominadas pelo tráfico. Ele revelou que a Polícia Civil não sabia dos planos dos criminosos de invasão ao Complexo do São Carlos.

— A Polícia tinha, há cerca de duas semanas atrás, recebido a informação da movimentação de criminosos nessa região, mas sem qualquer indicativo de que haveria qualquer disputa territorial envolvendo o Complexo do São Carlos. É importante esclarecer que, por conta da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que determina que a polícia só pode agir em hipóteses absolutamente excepcionais, essas informações de inteligência que até então não indicavam qualquer tipo de invasão nessa região, não puderam ser checadas — afirmou.

O subsecretário disse, também, que a decisão do Supremo impede que a polícia aja de forma preventiva.

— A polícia tem a informação de inteligência, mas ela precisa fazer a atividade de campo, ou seja, tem que checar em campo se aquela informação procede ou não. Mas se a polícia fosse a campo checar a informação de inteligência e verificasse que não havia procedência, estaria desrespeitando a decisão do STF e estaria sujeita a responsabilização civil, criminal e administrativa. Ou seja, a decisão impede que a polícia aja de forma preventiva, ela só autoriza que a polícia aja de forma reativa, como está agindo agora, quando a situação já ocorreu. Infelizmente a gente está cumprindo a determinação da decisão.

Polícia acreditava que criminosos presos no Humaitá se dirigiam à Vila Kennedy

Felipe Curi revelou ainda que a informação preliminar da Polícia Civil era de que os criminosos interceptados e presos no Humaitá nesta quarta-feira, em ação que levou pânico a moradores, estavam numa festa de um traficante, apontado como chefe do tráfico da Rocinha, e que estariam voltando à comunidade de origem, na Vila Kennedy.

— Não houve qualquer falha de inteligência, o deslocamento que houve ontem entre marginais eles estavam numa festa de um traficante, do chefe do tráfico da Rocinha e estavam se deslocando para a Vila Kennedy. A informação original que a polícia tinha era que esse deslocamento não era para o Complexo do São Carlos para atuarem na invasão, e sim em deslocamento. Aí, houve até a interceptação desses marginais pela polícia naquele local — disse a reportagem da Globonews.

Transferência e isolamento de lideranças

Curi também reforçou que os 16 presos durante esta ação das últimas 24 horas serão todos transferidos para presídios federais. A ideia também é isolar lideranças que já estão presas e que ajudam de dentro da cadeia a tramar invasões e outras ações criminosas.

— A polícia já atuou reativamente, já prendeu inclusive grandes lideranças que estavam envolvidas nesta disputa territorial sangrenta. Eu acabei de falar com o secretário de Polícia Civil (Flávio Brito) e nós vamos solicitar a transferência de todas essas pessoas envolvidas que foram presas nesta disputa de hoje para presídios federais, inclusive vamos pegar algumas lideranças que estão presas no Complexo de Gericinó, que nós já identificamos, e aí sim, preventivamente, vamos isolar essas pessoas para que não haja comunicação, a fim de evitar novas invasões.

Outro ponto citado por Curi, que mais uma vez voltou a falar sobre a decisão do STF, foi sobre a criação do relatório da Polícia Civil, antes da decisão final, que enviou ao Supremo um verdadeiro raio-x da atuação de criminosos — traficantes e milicianos — nas mais variadas áreas do estado.

— A Polícia Civil ela fez um relatório muito detalhado em resposta a essa decisão do STF, antes de ter a decisão final, mostrando com provas todas as consequências que iriam ter em relação a essa restrição de atuação das polícias de atuar nas comunidades. O Rio tem 1.400 favelas, cerca de 56 mil marginais fazem parte de organizações criminosas que utilizam essas áreas como bases operacionais para planejar suas ações, esconderijos de armas, drogas, das próprias lideranças, exatamente para planejar esse tipo de ação — comentou.

— Estamos praticamente há 3 meses sem operar em comunidades, o que só resultou no fortalecimento dessas organizações criminosas e no aumento dessas disputas territoriais. Isso está escrito em nosso relatório e nós avisamos que esse tipo de ocorrência iria aumentar no Rio de Janeiro como estamos vendo aí. E, paralelo a isso, também estamos verificando o aumento da área de abrangência de barricadas no Estado do Rio.

Governador também faz críticas à decisão do Supremo

No início da noite, o governador Wilson Witzel também se manifestou, quase 24 horas depois, sobre a guerra no Complexo do São Carlos. Witzel também se posicionou contrário à decisão do STF.

“A impossibilidade da presença permanente da força policial no interior das comunidades deixa parcela da sociedade do Rio de Janeiro refém do controle pelos narcoterroristas que fazem das áreas de domínio nas comunidades seus grandes bunkers e expandem livremente sua atuação.

Além da ação precisa contra os bandidos, nesta quarta, na entrada do túnel Rebouças, a polícia solucionou hoje dois sequestros, prendendo os criminosos e evitando qualquer dano aos reféns. As nossas forças de segurança não darão trégua ao crime e vão devolver a paz à população. A segurança pública é nossa prioridade, mas, por determinação judicial, a atuação das polícias está limitada no RJ”, escreveu em sua conta no Twitter.