Príncipe de Benevento e do Império, príncipe de Talleyrand e Périgord, duque de Dino, conde de Périgord, duque de Talleyrand e Périgord, cavaleiro da Ordem do Espírito Santo, grão-comandante da Ordem da Coroa de Westfalia…

Estes são alguns dos muitos títulos acumulados por Charles Maurice de Talleyrand (1754-1838) — uma das figuras mais fascinantes e controversas da história francesa e europeia — ao longo de 82 anos de vida.

Político de habilidades incríveis, que teve influência gigantesca entre o final do século 18 e início do século 19, Talleyrand é considerado o arquetípico traidor.

Além da lista quase interminável de títulos honoríficos, acumulou também imensa fortuna e o rancor dos muitos dirigentes que apoiou e logo depois abandonou à própria sorte — 20 deles ao todo, segundo o escritor Victor Hugo, seu contemporâneo.

“Liderou duas revoluções e enganou 20 reis”, escreveu Hugo após a morte de Talleyrand, em 1838.

E é possível que tenha enganado muitos mais, diz o escritor Xavier Roca Ferrer, autor de uma nova e detalhada biografia do personagem, intitulada Talleyrand. El ‘diablo cojuelo’ que dirigió dos revoluciones, engañó a veinte reyes y fundou a Europa (em tradução livre, “Talleyrand. O ‘diabo manco’ que liderou duas revoluções, enganou vinte reis e fundou a Europa”), Editora Arpa.

Isso porque, argumenta Ferrer, durante o auge da influência de Talleyrand, a Alemanha, por exemplo, possuía cerca de 300 Estados independentes. Cada um desses Estados tinha seu próprio líder, embora não necessariamente um rei.

“Entre reinados, impérios, ducados, principados e outros, é muito possível que o número (de líderes cortejados e abandonados por Talleyrand) tenha sido ainda mais alto.”

De bispo a “traidor”

Culto e refinado, Talleyrand nasceu em uma família da aristocracia francesa em 1754.

Era o primogênito, mas devido a um problema na perna, seus pais decidiram que ele teria poucas chances de fazer um casamento vantajoso. Então, concentraram suas atenções no segundo filho e decidiram que Talleyrand deveria seguir a carreira eclesiástica.

Durante o reinado de Luís 16, com a ajuda de um tio arcebispo, Talleyrand tornou-se ministro da Fazenda da Igreja francesa — cargo que o lançou ao topo da instituição religiosa e fez dele o bispo de Autun.

O sacerdócio, no entanto, não impediu que ele tivesse relacionamentos com inúmeras mulheres, entre elas a condessa Adelaida de Flahaut, mãe de seu único filho. Também não conteve sua insaciável paixão pelo jogo, nem impediu que especulasse e se envolvesse em incontáveis negócios sujos e casos de corrupção.

“Talvez a verdadeira grande paixão de Talleyrand não tenha sido a política, nem a economia, nem o jogo ou as mulheres mas, sim, o Risco, com letra maiúscula, e em todos esses campos”, escreve Roca Ferrer em sua biografia.

De início, ao eclodir a Revolução Francesa, foi simpático aos “descontentes” que a haviam impulsionado. O título de bispo lhe garantia um assento nos Estados Gerais de 1789 e o direito a intervir na nova França que se configurava. E ele não perdeu a oportunidade.

Colaborou na redação da primeira Constituição francesa, da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, tentou impulsionar uma monarquia constitucional “à inglesa” e propôs uma lei de educação universal gratuita que só um século depois se tornaria realidade.

Mas Talleyrand foi mais além. Quando a Assembleia Nacional debateu a desastrosa situação econômica do país, Talleyrand se destacou ao fazer uma proposta extremamente ousada, especialmente para alguém que levava o manto de arcebispo: ele propôs a nacionalização de todos os bens da Igreja francesa — dona, naquela época, de um quarto de todas as propriedades do país.

A proposta foi bem-sucedida, mas, obviamente, não agradou as autoridades eclesiásticas, que passaram a considerá-lo um traidor. Em 1791, o Papa ameaçou excomungá-lo. Não fez diferença: Talleyrand decidiu pendurar as vestes.

Uma relação próxima com Napoleão

Inicia-se o Terror, período em que a Revolução Francesa se radicaliza e a guilhotina começa a cortar cabeças.

Talleyrand decidiu sair da França e buscar refúgio na América, onde continuou fazendo negócios para sobreviver. Mas tinha saudades de seu país e, em 1796, regressou.

Um novo regime político se inaugurava na França nesse período. De natureza republicana, o chamado Diretório tinha forte apoio dos militares — e entre eles estava um jovem chamado Napoleão Bonaparte.

Talleyrand serviu como ministro das Relações Exteriores durante o Diretório e se tornou muito amigo do “promissor” Bonaparte. O vínculo entre os dois era tal que, no dia 9 de novembro de 1799, Napoleão, que ganhara grande prestígio após suas vitórias militares na Europa, deu um golpe de Estado com a ajuda de Talleyrand e tomou o poder.

Estabeleceu-se uma nova forma de governo, o chamado Consulado, também republicano. O poder ficava nas mãos de três cônsules, o primeiro deles sendo Napoleão.

Conhecedor das incríveis habilidades negociadoras de Talleyrand, a primeira providência de Napoleão ao assumir o poder foi nomeá-lo ministro das Relações Exteriores e cobri-lo de títulos.

Nesse período ocorreu o sequestro e, mais tarde, fuzilamento do duque de Enghien, um poderoso nobre, descendente da Casa de Bourbon que havia conseguido aglutinar o apoio da monarquia.

É possível que o crime esteja relacionado a um atentado contra Napoleão em dezembro de 1800 que quase lhe custou a vida (nove pessoas morreram). Acredita-se que o incidente seja atribuível à cumplicidade entre Enghien e os bretões em ascensão. Tanto Napoleão quanto Talleyrand temiam que, se algo desse tipo voltasse a acontecer, e com êxito, poderia ter início na França uma guerra civil.

Conspiração contra Napoleão

Ambicioso ao extremo, e desejoso de poder falar de igual para igual com os monarcas da Europa, Napoleão decidiu transformar o Consulado em um Império, proclamando-se imperador no dia 28 de maio de 1804.

E porque Talleyrand permanecera a seu lado, nomeou-o Grão-camarista, Vice Eleitor do Primeiro Império Francês e Príncipe de Benevento, além de conceder-lhe um salário estratosférico.

Ainda assim, Talleyrand foi aos poucos se distanciando de Napoleão que, cego por sua vaidade e por seus sucessivos êxitos em batalha, começou a tomar decisões erradas. As invasões da Espanha e da Rússia puseram fim à aliança entre os dois.

“Eu estava indignado diante de tudo o que via e escutava, mas me via obrigado a calar minha indignação”, escreveu Talleyrand em suas memórias.

Alegando problemas de saúde, renunciou ao cargo de ministro das Relações Exteriores. Bonaparte, por sua vez, nunca o perdoou por esse gesto e o humilhava sempre que podia.

Ele obrigou Talleyrand a se casar com a mulher com quem vivia — e de quem o ex-bispo já estava farto.

Convencido de que Napoleão já não trabalhava pela França mas, sim, por sua glória pessoal, Talleyrand decidiu que era preciso acabar com ele, de qualquer maneira.

“Fez tudo o que podia para freá-ló e moderá-lo até que, em 1807, convencido de que Napoleão não tinha conserto, o ex-bispo de Autun passou para o lado do inimigo”, disse o biógrafo.

Talleyrand conspirou o quanto pôde para forçar a saída de Napoleão. Até que, em abril de 1814, derrotado na batalha de Leipzig, Bonaparte renunciou.

O hábil Talleyrand decide então apoiar a ascensão de Luís 18, inimigo de Napoleão e primo do duque de Enghien, em cuja execução Talleyrand estivera envolvido.

Embora não gostasse nem um pouco dos Bourbon, decidiu que um deles era preferível a Napoleão.

Talleyrand foi o representante da França no Congresso de Viena — um encontro internacional cujo objetivo era restabelecer as fronteiras da Europa após a derrota de Napoleão.

“Sua gestão no Congresso de Viena foi magnífica”, diz Roca-Ferrer. “As quatro grandes potências estavam contra a França, queriam aniquilá-la para sempre, mas Talleyrand conseguiu habilmente contornar a situação.”

Mas Napoleão, exilado na ilha de Elba, escapou milagrosamente e ameaçou tomar o poder novamente. A aventura durou cem dias. Sua derrota final na batalha de Waterloo, em junho de 1815, deve ter alegrado bastante Talleyrand.

Embaixador em Londres

Luís 18 morreu em 16 de setembro de 1824. Foi sucedido pelo irmão, o conde de Artois, Carlos 10°. Mas em 1830 a chamada Revolução de Julho, apoiada por Talleyrand, obrigou Carlos 10° a renunciar. Sobe ao trono Luís Felipe de Orleans, que nomeia Talleyrand embaixador em Londres.

O último tratado firmado por Talleyrand como embaixador em Londres foi a Quádrupla Aliança envolvendo França, Inglaterra, Espanha e Portugal.

“Lutou toda a sua vida para pacificar as relações entre os países que julgava serem os mais civilizados do continente e induzi-los a uma colaboração que poderia apenas favorecer a todos. Após 400 anos de confrontos, desejava que França e Grã-Bretanha se entendessem”, diz Roca-Ferrer

“Talleyrand queria uma Europa pacífica em que países civilizados e sensatos colaborassem para alcançar o bem-estar geral e, claro, o seu em particular. Nesse sentido, foi muito avançado porque, naquele momento a ideia da União Europeia era inconcebível. Foram necessárias duas guerras mundiais para que se começasse a pensar nela”, acrescenta.

“De qualquer ângulo que você observe”, prossegue Roca-Ferrer, “ele foi um grande sobrevivente. Viveu muitos anos e atravessou períodos muito perigosos, dos quais sempre emergiu coberto de louvores… e mais rico. De qualquer maneira, tudo o que fez pensando em si mesmo acabou por favorecer a França — embora também possa ser dito o contrário: tudo o que fez pela França favoreceu a ele.”

Mas ele foi um traidor?

“Depende do ponto de vista. Ele foi adaptando suas ideias em um período de tremendas mudanças. Para Talleyrand, as circunstâncias moldavam as ideias. Não era um idealista, mas um pragmático. Mais pragmático do que traidor, na minha opinião. E no fundo, tudo o que fez, fez pensando em si mesmo e na França. O que ocorre é que, para ela, essas duas coisas estavam intrinsecamente conectadas. Por isso é tão difícil fazer um julgamento moral”, diz o biógrafo.