Dizem que se conselho fosse bom, não se dava, se vendia. E essa frase faz todo sentido quando falamos de alimentação, de dietas e de saúde de um modo geral. Quantas vezes você já ouviu que “é melhor não comer isso, mas sim, aquilo”? Que descobriram que tal coisa “engorda”, e que, se você não tirar da sua vida, não vai emagrecer nunca?

Pois é, vivemos um momento em que todo mundo se sente habilitado a falar sobre os hábitos alimentares alheios. Entendo que hoje em dia há mais informação disponível, e isso é ótimo. Mas quando se trata de saúde, o buraco é mais embaixo.

Vejo, por exemplo, muitos sendo orientados por todo tipo de pessoas, muitas vezes pessoas que não são profissionais de saúde ou que dão conselhos sem ter estudado a fundo o assunto, sobre o que comer ou não, quando e quanto comer, dietas e suplementos. Por maior que seja a boa vontade por trás dessa orientação, esse tipo de prática pode oferecer riscos à saúde, ou, no melhor dos cenários, não surtir efeito nenhum.

Um exemplo bastante comum e atual é essa obsessão por uma taxa de gordura cada vez mais baixa. As pessoas já saem da academia com um papelzinho, uma porcentagem escrita em números bem grandes, e, claro, uma meta de emagrecimento.

Algumas estão ficando cegas por estes números e se esquecendo que a gordura é importante para o funcionamento do corpo. Alguns treinadores incentivam os alunos a perseguir um percentual baixíssimo e chegam a dar as mesmas orientações para homens e mulheres, quando a fisiologia dos dois é completamente diferente.

Os homens podem estar saudáveis com apenas 10 a 15% de gordura, mas as mulheres precisam de pelo menos 20% para ter uma boa saúde e respeitar o corpo. Senão podem comprometer a própria fertilidade: algumas param de menstruar, outras, observam seu nível de libido despencar e podem até entrar em um quadro de depressão, buscando um corpo que não é natural.

Claro que é importante ter parâmetros, até para medir se o treino está fazendo efeito ou não. Mas da parte alimentar quem cuida é o nutricionista.

É ele que vai poder fazer uma avaliação mais profunda dos hábitos, do comportamento diante da comida, do estilo de vida…e dizer se algo precisa ser melhorado ou se há necessidade do uso de suplementos, junto com o médico.

Posso garantir que boa parte das nossas necessidades nutricionais são supridas por meio de uma boa alimentação, até mesmo para aqueles que querem ganhar massa muscular.

Mas eu quero emagrecer (ou crescer) logo!

Eu entendo a pressa. É realmente tentador imaginar que um só treinador possa te orientar sobre dieta, suplementação e ainda desenhar um treino de acordo com seus objetivos. Ter metas para cumprir é de fato motivador.

Mas um professor de educação física ou coach não vai conseguir fazer uma avaliação nutricional apropriada apenas olhando para você – a menos que ele também tenha formação em Nutrição.

E, ainda assim, seria preciso uma investigação mais profunda da sua saúde como um todo para entender se há deficiências, excessos ou se algum outro fator pode estar influenciado seu peso (como estresse, noites mal-dormidas, ansiedade, comer emocional, etc.).

Não estou dizendo aqui que um professor não tem o direito de dar dicas gerais, aquelas que todo mundo já sabe: diminuir o consumo em excesso de alimentos com frituras, de bebidas doces e alcoolizadas, de ultraprocessados, tentar reduzir o açúcar, tomar mais água, comer mais legumes, frutas e comida de verdade, etc.

Estou falando dos treinadores ou coaches que se sentem aptos a prescrever dieta ou “empurrar” suplementos para os alunos. Isso não é ético, mas, infelizmente, cada vez mais comum, como algumas pesquisas têm mostrado.

Em um estudo feito em 2015, pesquisadores da University of Sunshine Coast, em Queensland, na Austrália, entrevistaram profissionais da área de educação física para descobrir se estavam trabalhando fora do seu escopo e das suas qualificações, especialmente no que dizia respeito às recomendações nutricionais.

Eles comprovaram que 88% dos professores entrevistados ofereciam orientação nutricional individual, não só ligada ao condicionamento físico, mas até mesmo em questões ligadas à saúde dos alunos.

Uma outra análise australiana divulgada recentemente investigou como andava o conhecimento nutricional de treinadores fitness em relação a nutricionistas e ao público em geral.

Como era de se esperar, eles tiveram uma pontuação menor do que os nutricionistas. Mas o curioso é que apresentaram uma diferença quase que irrelevante de conhecimento a mais do que o público em geral.

Ou seja: não estavam aptos a receitar planos alimentares ou dietas e, muito menos, falar sobre a relação entre alimentação e doenças. Simplesmente porque não é a área de especialização deles.

Os pesquisadores envolvidos na pesquisa ressaltaram que é preciso incentivar o trabalho colaborativo, por meio de uma equipe multidisciplinar, pois esse é o melhor meio de alcançar objetivos relacionados à saúde e à composição corporal. E nisso eu acredito!

Cada um no seu quadrado

Sei que nem todo mundo tem paciência, tempo e disposição para seguir metas saudáveis, moderadas e gradativas. Só que perder peso rápido não é uma estratégia eficaz e assusta o corpo: a consequência é ter o apetite aumentado, o metabolismo desacelerado e, em mais de 95% dos casos, voltar a engordar e entrar para o efeito sanfona.

As pessoas não deveriam se apegar a números e metas sem antes fazer uma avaliação mais profunda. É preciso desconfiar de qualquer profissional que venda performance, beleza, longevidade, saúde ou emagrecimento como se fossem produtos.

Assim como o professor de educação física não deveria falar de dietas e suplementos, o nutricionista não pode falar de remédios ou vender produtos “milagrosos”; nem mesmo querer bancar o psicólogo quando existem questões emocionais mais profundas que estejam comprometendo a saúde física.

O ideal seria olhar para o corpo humano de forma mais holística, e buscar a saúde por meio de um trabalho multidisciplinar. Consultar o treinador sobre a atividade física mais adequada e como realizá-la de forma eficaz e sem sobrecarregar o corpo; um nutricionista para investigar os hábitos alimentares e o comportamento diante da comida.

Um médico para o caso de condições que exijam o uso de medicação; e um apoio de um nutricionista e psicólogo para os que estão comendo por motivos emocionais de forma muito frequente, ou, ainda, enfrentando algum transtorno alimentar.

Cada um na sua especialidade, mas trabalhando juntos à favor da saúde.