Na semana passada, assisti a uma aula do médico William W. Li, cuja tese é simples: os alimentos ativam as defesas de nosso organismo e são a melhor arma para nos mantermos saudáveis. Parece óbvio, mas vivemos numa sociedade que se entope de remédios. Depois de um TED Talk que ultrapassou cinco milhões de visualizações e de ter se tornando um best-seller ao lançar “Comer para vencer doenças” (“Eat to beat disease”), o doutor Li agora dá cursos para que as pessoas, independentemente da dieta que seguem, consigam montar um cardápio que proteja o que batizou dos cinco sistemas de defesa da saúde.

“Comecei na biotecnologia e ajudei a criar drogas para curar doenças, mas meu interesse é na prevenção. Em 30 anos de pesquisa, estudei a comida como medicamento, utilizando critérios semelhantes aos que usamos para desenvolver remédios. A diferença é que uma empresa farmacêutica leva dez anos para desenvolver uma medicação, enquanto o alimento tem efeito imediato! O corpo sabe o que fazer, temos que permitir que ele realize seu trabalho. As células se reproduzem o tempo todo e erros ocorrem, mas as defesas do organismo localizam as falhas e as corrigem”, enfatizou na abertura da aula.

Ele usa, inclusive, o termo “dosagem de alimentos”, que seria a quantidade ideal a ser ingerida diariamente para fortalecer os sistemas de defesa. O primeiro deles é a angiogênese, termo utilizado para descrever o mecanismo de desenvolvimento de novos vasos sanguíneos a partir dos já existentes. A angiogênese é um processo normal de cura, por exemplo, de um ferimento, mas também está ligado à propagação de enfermidades como o câncer. Depois que o tumor se forma, precisa de nutrientes e oxigênio para se disseminar, por isso envia sinais químicos que estimulam o crescimento de novos sanguíneos – para transportar o sangue que vai nutri-lo. É por isso que, no tratamento contra a doença, medicamentos bloqueiam a angiogênese. Os alimentos com essas propriedades: tomate, soja, chá verde e chocolate amargo, acima de 80%.

O segundo sistema de defesa é o da regeneração, que tem por trás as células-tronco, capazes de se transformar em outros tipos de células. Há as células-tronco embrionárias e as adultas, encontradas principalmente na medula óssea e no cordão umbilical; e as células pluripotentes induzidas, que foram obtidas por cientistas em laboratório em 2007. Adultos têm entre 50 mil e 200 mil células-tronco em sua medula óssea, bem mais do que se imaginava. Grãos integrais são seus aliados.

Vamos ao terceiro sistema, a microbiota: os trilhões de bactérias que ajudam a digestão, influenciam a angiogênese e têm papel fundamental no sistema imunológico, controlando os níveis de inflamação. Pesquisa recém-divulgada na revista científica “Science” ratifica sua importância: uma dieta rica em gorduras danifica células da parede do intestino e produz um tipo de metabólito que contribui para a doença cardiovascular. Disbiose é o termo para o desequilíbrio da microbiota. Alimentos amigos? Iogurte, brócolis, cogumelos, um kiwi por dia.

O quarto sistema é o DNA que, além de ser nosso código interno, nos protege contra os danos causados por um leque de fatores, entre os quais estão estresse, agentes químicos e radiação. Peixes, nozes e frutas podem reforçar sua atuação. Por fim, o sistema imunológico é a grande barreira do organismo. O médico faz uma lista dos alimentos que chama de “grand slams”, que beneficiam os cinco sistemas: manga, pêssego, damasco, cenoura, berinjela, couve, brócolis, nozes, além dos citados. Embora dietas sejam pessoais, ele calcula que uma xícara de mirtilos por semana seja suficiente para diminuir os riscos do câncer de mama, assim como estima que 11 nozes semanais previnam o câncer de cólon. Mesmo sabendo que a alimentação sozinha não dá conta de tudo, é um bom começo. Bem mais divertido (e saboroso) que engolir pílulas.